“Hoje caminhei mais do que ontem.”
Hoje caminhei mais do que ontem. Não porque o relógio inteligente tenha emitido um zumbido vibratório a exigir dez mil passos, nem porque esteja a tentar cumprir uma meta descarregada da internet. Decidi simplesmente fechar o computador às seis da tarde, calçar as sapatilhas de pele que mantenho debaixo da secretária e regressar a casa a pé.
Foram sete quilómetros entre as avenidas movimentadas e as ruas mais estreitas dos bairros antigos. Nos primeiros vinte minutos o cérebro ainda debateu prazos, chamadas pendentes e mensagens de correio eletrónico. No quadragésimo minuto, o ritmo da marcha sincronizou com a respiração. Comecei a reparar na cor do céu de inverno sobre os telhados, no vapor a sair das saídas de exaustão das pastelarias e no som rítmico da sola a pisar o calcário.
Cheguei a casa com a camisola ligeiramente humedecida, as maçãs do rosto coradas pelo frio e um apetite límpido para o jantar. A caminhar, um homem reencontra o tamanho exato da sua vida. Amanhã farei o mesmo.